A Rússia bombardeou a Ucrânia com centenas de drones e dezenas de mísseis em um ataque de grande escala durante a noite, disseram autoridades nesta sexta-feira (9), matando pelo menos quatro pessoas na capital. Pela segunda vez em quase quatro anos de guerra, o país usou um novo e poderoso míssil hipersônico que atingiu o oeste da Ucrânia, em um claro aviso aos aliados da OTAN de Kiev.
O intenso bombardeio e o lançamento do míssil Oreshnik, com capacidade nuclear, ocorreram dias depois de a Ucrânia e seus aliados relatarem progressos significativos em direção a um acordo sobre como defender o país de novas agressões de Moscou, caso um acordo de paz liderado pelos EUA seja firmado.
Os líderes europeus condenaram o ataque como “escalador e inaceitável”, e o principal enviado da União Europeia para os Negócios Estrangeiros afirmou que a resposta do presidente russo, Vladimir Putin, à diplomacia foi “mais mísseis e destruição”.
O ataque também coincide com um novo esfriamento nas relações entre Moscou e Washington, após a Rússia condenar a apreensão de um petroleiro pelos EUA no Atlântico Norte. O incidente ocorre num momento em que o presidente americano, Donald Trump, sinalizou seu apoio a um pacote de sanções severas com o objetivo de prejudicar economicamente Moscou, que não deu nenhum sinal público de que esteja disposta a ceder em suas exigências maximalistas em relação à Ucrânia.
Prédios de apartamentos em Kiev ficam sem aquecimento
Autoridades ucranianas informaram que quatro pessoas morreram e pelo menos 25 ficaram feridas em Kiev, após prédios residenciais serem atingidos durante a noite.
Entre os mortos estava um socorrista, segundo Tymur Tkachenko, chefe da Administração Militar da Cidade de Kiev. Quatro médicos e um policial ficaram feridos enquanto respondiam aos ataques, disseram as autoridades.
Cerca de metade dos prédios de apartamentos de Kiev, cobertos de neve — quase 6.000 — ficaram sem aquecimento em meio a temperaturas diurnas de cerca de -8 graus Celsius (17,6 graus Fahrenheit), disse o prefeito Vitali Klitschko. O abastecimento de água também foi interrompido.
Os serviços municipais restabeleceram a energia elétrica e o aquecimento em instalações públicas, incluindo hospitais e maternidades, utilizando caldeiras portáteis, afirmou ele.
O ataque danificou a embaixada do Catar em Kiev, de acordo com o presidente Volodymyr Zelenskyy, que observou que o Catar tem desempenhado um papel fundamental na mediação da troca de prisioneiros de guerra.
Ele pediu uma “resposta clara” da comunidade internacional, particularmente dos EUA, que, segundo ele, a Rússia leva a sério.
Moscou afirma que o ataque foi uma retaliação
O Serviço de Segurança da Ucrânia informou ter identificado destroços do míssil Oreshnik na região de Lviv, no oeste do país. Segundo os investigadores, o míssil foi disparado do campo de testes russo de Kapustin Yar, próximo ao Mar Cáspio, no sudoeste da Rússia, e tinha como alvo infraestrutura civil.
“Ouvi uma explosão alta e chocante, e é normal ouvir essas coisas por aqui neste momento de guerra”, disse Kristofer Chokhovich, morador de Lviv e que se identificou como americano. “Só quero que todos no mundo saibam que a Ucrânia é forte e não nos importamos com quantos mísseis vocês enviem.”
Outra moradora, Ulyana Fedun, descreveu o ataque como “muito desagradável”, mas não assustador, porque “vivemos neste estado há quatro anos”.
O Ministério da Defesa da Rússia afirmou que o ataque foi uma retaliação ao que Moscou alegou ter sido um ataque de drone ucraniano contra uma das residências de Putin no mês passado. Tanto Trump quanto a Ucrânia rejeitaram a alegação russa.
Moscou não informou onde o míssil Oreshnik atingiu a Ucrânia, mas a mídia russa e blogueiros militares afirmaram que o alvo era uma instalação subterrânea de armazenamento de gás natural na região de Lviv. A ajuda militar ocidental chega à Ucrânia a partir de um centro de distribuição na Polônia, logo após a fronteira.
Putin já afirmou que o míssil Oreshnik atinge seu alvo a Mach 10, “como um meteoro”, e é imune a qualquer sistema de defesa antimíssil. Vários deles, usados em um ataque convencional, poderiam ser tão devastadores quanto um ataque nuclear, segundo Putin, que alertou o Ocidente de que a Rússia poderia usá-lo contra aliados de Kiev que permitam ataques dentro do território russo com mísseis de longo alcance.
A inteligência ucraniana afirma que o míssil possui seis ogivas, cada uma carregando seis submunições.
A Rússia utilizou o míssil Oreshnik pela primeira vez contra a cidade ucraniana de Dnipro em novembro de 2024. Analistas afirmam que isso confere à Rússia um novo elemento de guerra psicológica, perturbando os ucranianos e intimidando os países ocidentais que auxiliam a Ucrânia.
Ucrânia busca apoio internacional
O ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Andrii Sybiha, afirmou que a Ucrânia iniciará uma ação internacional em resposta ao uso do míssil, incluindo uma reunião urgente do Conselho de Segurança da ONU e uma reunião do Conselho Ucrânia-OTAN.
O Conselho de Segurança agendou uma reunião sobre a Ucrânia para a tarde de segunda-feira.
“Um ataque como este, tão próximo da fronteira da UE e da OTAN, representa uma grave ameaça à segurança do continente europeu e um teste para a comunidade transatlântica. Exigimos respostas firmes às ações imprudentes da Rússia”, afirmou ele em uma publicação no X.
O pedido da Ucrânia para uma reunião de emergência do Conselho de Segurança foi transmitido ao conselho, e seis dos 15 membros solicitaram uma reunião na segunda-feira, mas nenhuma data foi definida ainda, disse um diplomata da ONU, falando sob condição de anonimato porque as discussões têm sido privadas.
O Papa Leão XIV, falando no Vaticano, exortou a comunidade internacional a continuar a lutar pela paz e a pôr fim ao sofrimento na Ucrânia.
“Diante desta situação trágica, a Santa Sé reitera veementemente a necessidade premente de um cessar-fogo imediato e de um diálogo motivado por uma busca sincera de caminhos que conduzam à paz”, disse o pontífice aos embaixadores no Vaticano de todo o mundo.
Os líderes da Grã-Bretanha, França e Alemanha disseram ter conversado sobre o ataque e o consideraram “uma escalada da violência e inaceitável”.
A chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas, disse que o lançamento do míssil Oreshnik “tinha como objetivo servir de aviso à Europa e aos EUA”.
“Putin não quer a paz, a resposta da Rússia à diplomacia é mais mísseis e destruição”, escreveu Kallas nas redes sociais.
Fonte: Associated Press (AP)/Samya Kullab e Illia Novikov











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