Mais de 1.500 pessoas, entre autoridades de renome nacional, profissionais da segurança pública, especialistas, empresários e representantes do sistema de justiça de todo o país, estiveram presentes no “Brasil Sob Ameaça – Encontro Nacional de Segurança e Combate ao Crime Organizado”, encerrado na noite de terça-feira (28), em Vitória.
Com debates que giraram em torno do avanço do crime organizado e dos desafios do enfrentamento da pauta no Brasil, o evento foi palco de dois dias intensos de programação, com participação de nomes como o ex-capitão do BOPE, Rodrigo Pimentel; o deputado federal Guilherme Derrite; o ex-procurador da República Deltan Dallagnol e a desembargadora Ivana David.

Durante a abertura, o governador do Estado, Ricardo Ferraço, defendeu o endurecimento da legislação. “O crime organizado pode não ter motivação ideológica nem religiosa, mas pratica o terrorismo em sua concepção mais objetiva: intimida, paralisa e desafia o Estado brasileiro”, afirmou.
Coordenador do evento, o juiz criminal Carlos Eduardo Ribeiro Lemos destacou a necessidade de tratar a segurança pública como política de Estado. “Segurança pública e salvar vidas não deveria ser nem de direita nem de esquerda, deveria ser uma política pública. O Brasil convive hoje com territórios dominados e com violências que não podem ser mais tratadas com respostas antigas”.
Especialistas debatem enfrentamento ao crime organizado
O capitão veterano do BOPE e especialista em segurança pública Rodrigo Pimentel afirmou que o crime organizado só existe com a simbiose do Estado. “Se não há participação ou omissão de agente público, o crime não é organizado. Quando uma facção compra decisões judiciais, consegue soltar um preso de segurança máxima pela porta da frente ou infiltra dinheiro no mercado financeiro, isso é sinal claro dessa estrutura”.
O combate ao terrorismo e ao crime organizado também foi tema da palestra de Eliel Teixeira, xerife em Los Angeles (EUA). Teixeira destacou que a principal lição americana para o Brasil é que o crime organizado só é vencido com integração institucional e apoio popular. Além disso, reforçou que as instituições precisam evoluir tão rápido quanto o crime, unindo esforços e mantendo a sociedade consciente para retomar a segurança.

O ex-procurador da República Deltan Dallagnol afirmou que o Brasil enfrenta uma perda progressiva de soberania territorial para facções criminosas. Mais do que controlar o tráfico, esses grupos consolidaram um Estado paralelo em diversas regiões, onde exercem funções administrativas, impondo tributos, gerindo serviços, ditando regras e operando tribunais próprios. Para ele, há também um limite operacional grave no modelo atual de policiamento. “O modelo tradicional exige que o agente aguarde uma agressão iminente para reagir. Diante de exércitos criminosos que somam cerca de 70 mil integrantes armados, essa doutrina condena o policial à morte e desestimula o combate ao crime”, afirmou.
Comandante da Companhia Independente de Policiamento Escolar da PMES (CIPE), o Major Eliandro Claudino alertou para a urgência da prevenção nas escolas. “Hoje, nenhuma escola no Brasil pode se dizer totalmente segura, e isso acontece porque ainda não aprendemos a prevenir. Somente este ano, já somamos 47 casos de violência no ambiente escolar, quase metade deles causados por adolescentes. O problema não começa no momento do ataque; ele ganha força muito antes, no silêncio que ignoramos”.
A desembargadora do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJSP) Ivana David alertou que o crime organizado já ocupa centros econômicos. “O crime não está apenas nas mãos de alguns jovens armados na periferia, mas também em grandes estabelecimentos comerciais, escritórios e jogos de apostas. São investidores que, sem nunca tocar em uma arma, lavam dinheiro e sustentam toda essa estrutura por meio de negócios aparentemente legítimos”.
Já o deputado federal Guilherme Derrite reforçou a necessidade de mudança estrutural no combate à criminalidade. “O que não dá mais para aceitar é o Brasil continuar sendo um paraíso de impunidade para criminosos”.
O encerramento do encontro contou com a participação virtual do ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema, que equiparou o avanço das facções criminosas a uma ameaça à soberania nacional. “O Brasil não tem um país vizinho que está invadindo, que está atacando sua soberania, mas tem facções que estão controlando territórios”.
Fonte: C2 Comunicação/Laísa Rasseli











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