Casos recentes de intoxicação por metanol em bebidas alcoólicas adulteradas acenderam um alerta entre médicos e autoridades de saúde. A substância, altamente tóxica, tem provocado mortes e sequelas graves, como a perda irreversível da visão, em diferentes regiões do país.
Especialistas acompanham de perto os novos registros. O oftalmologista Fábio Ejzenbaun, da Santa Casa de São Paulo, explicou que o metanol, ao ser metabolizado pelo fígado, produz ácido fórmico — composto que atinge de forma direta o nervo óptico.
“Ele diminui muito o metabolismo das mitocôndrias, que são essenciais para as células do nervo óptico. Dependendo da dose, isso pode levar a perdas visuais graves e irreversíveis”, afirmou.
Segundo o médico, o tempo de diagnóstico e início do tratamento é determinante para evitar complicações mais severas.
Já em relação a outros efeitos no organismo, o vice-presidente da Sociedade Brasileira de Toxicologia, José Roberto Santin, destacou que pequenas quantidades podem ser confundidas com embriaguez comum, o que dificulta o reconhecimento precoce. Ele alertou que, em doses maiores, o quadro pode evoluir para convulsões, coma e insuficiência respiratória.
“Um volume entre 30 e 240 ml já pode ser letal em um adulto, dependendo da rapidez com que o tratamento é iniciado”, disse.
Os sintomas mais graves costumam surgir entre 8 e 24 horas após a ingestão, o que reforça a necessidade de atenção ao aparecimento de sinais como visão turva, pontos brilhantes, náuseas intensas e confusão mental.
Ejzenbaun ressaltou que, após instalada a cegueira, não há reversão possível, pois as células do nervo óptico não se regeneram. O protocolo inclui uso de etanol intravenoso, diálise e ácido folínico, mas a eficácia depende diretamente do tempo de resposta.
Um desafio adicional é que o metanol é incolor e inodoro, o que impossibilita a detecção por parte do consumidor. A identificação só pode ser feita por meio de análises laboratoriais. Por isso, Santin reforçou a recomendação: nunca consumir bebidas de origem duvidosa ou adquiridas em locais informais.
“O gosto, o cheiro e a aparência não se modificam. A única forma de prevenir é evitar produtos sem registro ou vendidos em pontos não fiscalizados”, explicou.
Os especialistas também chamaram a atenção para a mudança no perfil dos casos. Se antes as intoxicações estavam associadas principalmente a populações vulneráveis que consumiam álcool combustível, agora há relatos de bebidas de marcas conhecidas adulteradas em estabelecimentos regularizados. Isso amplia o risco e reforça a necessidade de investigações sobre a cadeia de distribuição.
A Sociedade Brasileira de Toxicologia já havia alertado, em 2023, sobre o aumento dos episódios no país. Agora, a frequência em curto espaço de tempo surpreende até os profissionais da área. Para Ejzenbaun, a divulgação ampla das informações é fundamental para que médicos, hospitais e consumidores estejam atentos aos sinais da intoxicação.
Diante de qualquer suspeita após o consumo, a orientação é buscar atendimento médico imediato.
Fonte: CBN











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