A Ucrânia e seus aliados europeus acusaram o presidente russo Vladimir Putin, nesta quarta-feira (3), de fingir interesse nos esforços de paz, após cinco horas de negociações com enviados dos EUA no Kremlin não terem produzido nenhum avanço.
A ministra das Relações Exteriores do Reino Unido, Yvette Cooper, afirmou que o líder russo “deveria pôr fim à fanfarronice e ao derramamento de sangue e estar pronto para se sentar à mesa de negociações e apoiar uma paz justa e duradoura”. O ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Andrii Sybiha, instou Putin a “parar de desperdiçar o tempo do mundo”.
As declarações refletiram as altas tensões e o abismo entre a Rússia, de um lado, e a Ucrânia e seus aliados europeus, de outro, sobre como pôr fim a uma guerra que Moscou iniciou ao invadir seu vizinho há quase quatro anos.
Um dia antes, Putin acusou os europeus de sabotarem os esforços de paz liderados pelos EUA — e alertou que, se provocada, a Rússia estaria pronta para a guerra com a Europa.
Desde a invasão de 2022, governos europeus, juntamente com os EUA, gastaram bilhões de dólares para apoiar Kiev financeira e militarmente. Sob a presidência de Donald Trump, no entanto, os EUA moderaram seu apoio e, em vez disso, pressionaram para o fim da guerra.
O assessor de assuntos externos de Putin, Yuri Ushakov, disse que as conversas de terça-feira no Kremlin entre Putin e o enviado dos EUA, Steve Witkoff, e o genro de Trump, Jared Kushner, foram “positivas”, mas não divulgou detalhes.
Segundo um alto funcionário do governo Trump, que não estava autorizado a comentar publicamente e falou sob condição de anonimato, Witkoff e Kushner devem se reunir com o principal negociador da Ucrânia, Rustem Umerov, na quinta-feira, em Miami, para novas conversas.
Trump afirmou que Witkoff e Kushner saíram da longa reunião com Putin confiantes de que ele deseja encontrar uma solução para a guerra. “A impressão que eles tiveram foi muito forte de que ele gostaria de chegar a um acordo”, disse Trump.
O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky disse: “O mundo sente claramente que existe a possibilidade de acabar com a guerra”.
Em comentários feitos durante seu discurso noturno, publicados no Telegram, Zelensky afirmou que o esforço depende de “diplomacia construtiva aliada à pressão sobre o agressor. Ambos os componentes contribuem para a paz”.
Não está claro para onde caminham as negociações de paz
O rumo que as negociações de paz tomarão daqui para frente depende, em grande parte, de o governo Trump decidir aumentar a pressão sobre a Rússia ou sobre a Ucrânia para que façam concessões.
Uma proposta de paz dos EUA, tornada pública no mês passado, foi criticada por ser fortemente tendenciosa a favor de Moscou, pois atendia a algumas das principais exigências do Kremlin, que Kiev rejeitou por considerá-las inaceitáveis.
Muitos líderes europeus temem que, se Putin conseguir o que quer na Ucrânia, terá carta branca para ameaçar seus países, que já enfrentam incursões de drones e caças russos , além de uma suposta campanha generalizada de sabotagem.
Os lados russo e americano concordaram na terça-feira em não divulgar o conteúdo de suas negociações no Kremlin, mas pelo menos um grande obstáculo para um acordo permanece: o destino de quatro regiões ucranianas que a Rússia ocupa parcialmente e reivindica como suas.
Após as negociações, Ushakov disse aos repórteres que “até o momento, não se chegou a um acordo” sobre a questão territorial, sem a qual o Kremlin não vê “nenhuma solução para a crise”.
A Ucrânia descartou ceder o território capturado pela Rússia.
Questionado se a paz estava mais perto ou mais longe após as negociações, Ushakov disse: “Com certeza não mais longe”.
“Mas ainda há muito trabalho a ser feito, tanto em Washington quanto em Moscou”, disse ele.
O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou na quarta-feira que “não era correto” dizer que Putin havia rejeitado o plano de paz dos EUA. Ele se recusou a dar mais detalhes sobre as negociações.
“Deliberadamente não vamos acrescentar nada”, disse ele. “Entende-se que quanto mais discretas forem as negociações, mais produtivas elas serão”.
Europeus reforçam a assistência à Ucrânia
Os ministros das Relações Exteriores dos países europeus da OTAN, reunidos na quarta-feira em Bruxelas, demonstraram pouca paciência com Moscou.
“O que vemos é que Putin não mudou de rumo. Ele está intensificando sua atuação no campo de batalha”, disse o ministro das Relações Exteriores da Estônia, Margus Tsahkna. “É bastante óbvio que ele não quer nenhum tipo de paz.”
A ministra das Relações Exteriores da Finlândia, Elina Valtonen, fez a mesma observação. “Até agora, não vimos nenhuma concessão por parte do agressor, que é a Rússia, e acho que a melhor medida para gerar confiança seria começar com um cessar-fogo total”, disse ela.
O secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, afirmou que os parceiros da Ucrânia continuarão fornecendo ajuda militar para garantir que a pressão sobre Moscou seja mantida.
“As negociações de paz estão em andamento. Isso é bom”, disse Rutte.
“Mas, ao mesmo tempo, temos que garantir que, enquanto esses conflitos acontecem e não sabemos quando terminarão, a Ucrânia esteja na posição mais forte possível para manter a luta e revidar contra os russos”, disse ele.
Canadá, Alemanha, Polônia e Holanda anunciaram que gastarão centenas de milhões de dólares em conjunto para comprar armas americanas e doá-las à Ucrânia.
Diferentemente do governo Biden, o governo Trump não aprovou doações de armas para a Ucrânia. Em vez disso, vendeu-as diretamente a Kiev ou a aliados da OTAN que, por sua vez, as repassaram à Ucrânia.
Fonte: Associated Press (AP)/LORNE COOK e ILLIA NOVIKOV











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