Quando se deparou com o tema da redação do ENEM deste ano, em uma sala de aula cheia de vestibulandos jovens, o amazonense José Gomes, de 67 anos, afastado dos estudos por mais de três décadas, não se conteve e deu uma risada.
“Eu me deparei com a redação, com o tema da redação, que falava exatamente sobre a perspectiva do envelhecimento da sociedade brasileira e eu ri alto. Eu era o único idoso da sala”.
Depois de duas graduações feitas, em Letras e Administração, José ainda guardava o desejo de estudar História. Sem avisar, a filha dele resolveu inscrevê-lo para o ENEM de 2025. Apesar de não ter se preparado especialmente para a prova, José diz que a rotina de leituras o faz acreditar que se saiu bem, principalmente na redação. Com o tema ‘Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira’, José usou a própria vida de repertório.
“Eles colocaram aquela gravura que a gente vê no estacionamento, que tem aquele senhor com a bengala, dizendo que é idoso, e que mudou agora. O senhor idoso não está mais com a bengala, ele está em pé. Eu me vi ali, aquele 60+, entendeu? E aquilo me deu um insight: eu vou falar na terceira pessoa, mas vou falar de mim.”
Nesta edição do ENEM, mais de 17 mil pessoas com mais de 60 anos se inscreveram para realizar o exame no Brasil, um recorde desde 2009, quando foi adotado o atual formato do Enem. Quase 2 em cada 10 inscritos estão no Rio de Janeiro, o estado com maior número de candidatos nessa faixa etária.
Durante a infância, Magna Gomes morou na casa da avó, na Paraíba, enquanto a mãe trabalhava como empregada doméstica no Rio. Aos 10 anos, foi morar com a mãe, que morreu logo em seguida. Sem opção, Magna foi trabalhar, nas palavras dela, “em casa de madame”, sem poder concluir nem o Ensino Fundamental.
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Magna prestou Enem. Foto: Arquivo Pessoal
Já com 64 anos e três filhos crescidos, Magna resolveu concluir os estudos na modalidade de Ensino de Jovens e Adultos, e decidiu não parar por aí. Ela se lembrou das filhas dos patrões que iam para a faculdade enquanto trabalhava, e decidiu que, agora aos 70 anos, era o momento de tentar realizar um desejo antigo.
“Eu tô almejando direito e gestão pública. Primeiro pra conhecer seus direitos. As pessoas são muito desinformadas. Eu vejo muita injustiça na classe pobre. As pessoas não sabem. Eu fico triste com isso, entendeu? E as pessoas que se formam não têm interesse em defender determinadas causas”.
Em Belo Horizonte, Maria Aparecida da Silva, de 73 anos, também decidiu voltar pra sala de aula. Quando adolescente, ela não tinha uma boa relação com os estudos. A gravidez ainda na adolescência, somada às reprovações, fez com que ela se afastasse da escola.
Depois de cuidar de quatro filhos e ajudar na criação de seis netos, ela sentiu que era o momento de cuidar de si mesma.
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Maria Aparecida com os filhos. Foto: Arquivo Pessoal
“E um desses netos me matriculou na EJA. Eu fiz com 68 anos o Ensino Fundamental, e com 69/70 anos eu fiz o Ensino Médio. Me veio essa vontade louca de fazer tudo, de começar tudo de novo.”Quero fazer um curso de geografia. Foi quando eu falei: vou fazer o ENEM, vou tentar. E o ENEM é uma coisa excepcional, é uma coisa boa porque mexe com a sua cabeça, mexe com o seu preparo. As pessoas mais velhas são muito excluídas de tudo. E tem esse preconceito. As pessoas muitas vezes perguntam: ‘mas pra que você vai fazer ENEM? Pra que você vai estudar? Pra que você quer uma faculdade?’ Eu falo: pra mim.”
O médico gerontólogo e presidente do Centro Internacional da Longevidade, Alexandre Kalache, explica o que motiva Maria Aparecida: estudar ajuda a mente e a saúde.
“Aprender uma segunda língua protege contra o Alzheimer e você ser analfabeto aumenta o risco de você ter uma demência senil. Um estudo feito na América Latina recentemente mostrou que, sobretudo no Brasil, o principal fator de risco para você ter uma demência é a baixa escolaridade. Todo o incentivo deve ser dado para que as pessoas, à medida em que envelheçam, possam ter acesso ao ensinamento e aprendizado ao longo da vida.”
Estudar também pode ser uma válvula de escape para momentos difíceis. José Gomes perdeu a mulher há quase um ano e enxerga na possibilidade de voltar à sala de aula uma forma de superar a perda.
José lembra de uma frase da atriz Fernanda Montenegro, que estava numa das questões do Enem deste ano, e ressalta a importância de ‘olhar pra frente’:
“A Fernanda Montenegro que está na prova, que diz que a velhice é o tempo em que a vida já foi vivida, né? Mas pode finalmente ser olhada de frente, sem o pânico do ineditismo. Eu me vejo assim, entendeu? Pra mim o pior já passou, eu vou curtir agora. É encarar com o otimismo, porque a idade é iminente.”
Dados do Inep
De acordo com o Inep, responsável pelo Enem, o número de participantes idosos quase triplicou desde 2022. José, Maria Aparecida e Magna se juntam, portanto, a milhares de pessoas que acreditam e colocam em prática a ideia atemporal de que ‘nunca é tarde para aprender’.
Fonte: CBN/Júlia Vianna











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