Tropas de diversos países europeus continuaram a chegar à Groenlândia, nesta quinta-feira (15), em demonstração de apoio à Dinamarca, enquanto as conversas entre representantes da Dinamarca, Groenlândia e Estados Unidos evidenciaram um “desacordo fundamental” sobre o futuro da ilha ártica.
A divergência tornou-se mais evidente na quinta-feira, quando a Casa Branca descreveu os planos para novas conversas com autoridades da Dinamarca e da Groenlândia como “conversas técnicas sobre o acordo de aquisição” para os EUA adquirirem a Groenlândia.
Isso estava muito longe da forma como o Ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Lars Løkke Rasmussen, descreveu o grupo como um grupo de trabalho que discutiria maneiras de superar as diferenças entre as nações.
“O grupo, em nossa opinião, deve se concentrar em como abordar as preocupações de segurança americanas, respeitando ao mesmo tempo as linhas vermelhas do Reino da Dinamarca”, disse ele na quarta-feira após a reunião.
Antes do início das negociações na quarta-feira, a Dinamarca anunciou que aumentaria sua presença militar na Groenlândia. Vários parceiros europeus — incluindo França, Alemanha, Reino Unido, Noruega, Suécia e Holanda — começaram a enviar um número simbólico de tropas ou prometeram fazê-lo nos dias seguintes.
Os movimentos de tropas tinham como objetivo demonstrar a unidade entre os europeus e enviar um sinal ao presidente Donald Trump de que uma tomada de poder americana na Groenlândia não é necessária, já que a OTAN, em conjunto, pode salvaguardar a segurança da região ártica em meio ao crescente interesse russo e chinês.
As tropas europeias pouco fizeram para dissuadir Trump.
Do centro para a direita, a Ministra das Relações Exteriores da Groenlândia, Vivian Motzfeldt, o Embaixador da Dinamarca, Jesper Møller Sørensen (ao fundo), e o Ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Lars Løkke Rasmussen (à direita). Foto: AP/J. Scott Applewhite
A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse na quinta-feira que isso não teve impacto na tomada de decisão do presidente dos EUA nem em seu objetivo de adquirir a Groenlândia.
“O presidente deixou bem clara sua prioridade: ele quer que os Estados Unidos adquiram a Groenlândia. Ele acredita que isso é do melhor interesse da nossa segurança nacional”, disse ela.
Rasmussen, acompanhado por sua homóloga da Groenlândia, Vivian Motzfeldt, disse na quarta-feira que um “desacordo fundamental” sobre a Groenlândia persistia após o encontro na Casa Branca com o vice-presidente JD Vance e o secretário de Estado Marco Rubio.
Rasmussen afirmou que “continua claro que o presidente tem esse desejo de conquistar a Groenlândia”, mas que o diálogo com os EUA continuará em alto nível nas próximas semanas.
Entretanto, o presidente francês Emmanuel Macron anunciou na quarta-feira que “os primeiros elementos militares franceses já estão a caminho” e que “outros os seguirão”, enquanto as autoridades francesas informaram que cerca de 15 soldados da unidade de infantaria de montanha já estavam em Nuuk para um exercício militar.
A Alemanha enviará uma equipe de reconhecimento de 13 pessoas para a Groenlândia na quinta-feira, informou o Ministério da Defesa.
Na quinta-feira, o ministro da Defesa dinamarquês, Troels Lund Poulsen, afirmou que a intenção era “estabelecer uma presença militar mais permanente com uma maior contribuição dinamarquesa”, segundo a emissora dinamarquesa DR. Ele disse que soldados de vários países da OTAN estarão na Groenlândia em um sistema de rodízio.
‘A Groenlândia não quer fazer parte dos Estados Unidos’
Os habitantes da Groenlândia e da Dinamarca reagiram com ansiedade, mas também com certo alívio pelo fato de as negociações com os EUA prosseguirem e o apoio europeu estar se tornando visível.
O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, saudou a continuação do “diálogo e da diplomacia”.
“A Groenlândia não está à venda”, disse ele na quinta-feira. “A Groenlândia não quer ser propriedade dos Estados Unidos. A Groenlândia não quer ser governada pelos Estados Unidos. A Groenlândia não quer fazer parte dos Estados Unidos.”
Em Nuuk, capital da Groenlândia, moradores locais disseram à Associated Press que ficaram satisfeitos com a realização do primeiro encontro entre autoridades groenlandesas, dinamarquesas e americanas, mas sugeriram que o evento gerou mais perguntas do que respostas.
Várias pessoas disseram que viam a decisão da Dinamarca de enviar mais tropas, e as promessas de apoio de outros aliados da OTAN, como uma proteção contra uma possível ação militar dos EUA. Mas autoridades militares europeias não sugeriram que o objetivo seja dissuadir uma ação dos EUA contra a ilha.
Maya Martinsen, de 21 anos, disse que era “reconfortante saber que os países nórdicos estão enviando reforços”, pois a Groenlândia faz parte da Dinamarca e da OTAN.
A disputa, disse ela, não é sobre “segurança nacional”, mas sim sobre “os petróleos e minerais que temos intocados”.
Mais tropas, mais negociações
Na quarta-feira, Poulsen anunciou um aumento da presença militar no Ártico “em estreita cooperação com nossos aliados”, classificando-o como uma necessidade em um ambiente de segurança no qual “ninguém pode prever o que acontecerá amanhã”.
“Isso significa que, a partir de hoje e no futuro próximo, haverá uma presença militar maior na Groenlândia e em seus arredores, com aeronaves, navios e soldados, inclusive de outros aliados da OTAN”, disse Poulsen.
A Dinamarca informou a OTAN que realizará exercícios na Groenlândia, e a Comandante Suprema Aliada da aliança, Alexus Grynkewich, conversou na quinta-feira com o chefe de defesa da Dinamarca, Coronel Martin O’Donnell, disse um porta-voz de Grynkewich à AP.
Ele afirmou que esse diálogo é típico e acrescentou que “todos concordamos que o Ártico – incluindo a Groenlândia – é importante para a segurança transatlântica”.
Os exercícios dinamarqueses e o envio de tropas adicionais “reforçam nossas defesas coletivas naquela região”, disse O’Donnell.
A embaixada russa em Bruxelas criticou duramente, na quinta-feira, o que chamou de “planos belicosos” do Ocidente em resposta a “ameaças fantasmas que eles próprios criam”. Afirmou que as ações militares planejadas fazem parte de uma “agenda anti-Rússia e anti-China” da OTAN.
“A Rússia sempre defendeu que o Ártico deve permanecer um território de paz, diálogo e cooperação igualitária”, afirmou a embaixada.
Fonte: Associated Press (AP)/Emma Burrows











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