Um dia após a audaciosa operação militar dos EUA na Venezuela, o presidente Donald Trump renovou, no domingo (4), seus apelos por uma anexação americana do território dinamarquês da Groenlândia em nome dos interesses de segurança dos EUA e ameaçou com ação militar a Colômbia por facilitar a venda global de cocaína, enquanto seu principal diplomata declarou que o governo comunista em Cuba está “em grandes apuros”.
Os comentários de Trump e do secretário de Estado Marco Rubio após a deposição de Nicolás Maduro, da Venezuela, reforçam a ideia de que o governo dos EUA está levando a sério a possibilidade de assumir um papel mais abrangente no Hemisfério Ocidental.
Com ameaças veladas, Trump está abalando aliados e inimigos em todo o hemisfério, suscitando uma pergunta incisiva em todo o mundo: Quem será o próximo?
“É um momento estratégico crucial. A Groenlândia está repleta de navios russos e chineses”, disse Trump a repórteres enquanto retornava a Washington de sua casa na Flórida. “Precisamos da Groenlândia do ponto de vista da segurança nacional, e a Dinamarca não poderá nos ceder esse controle”.
Questionado durante uma entrevista ao The Atlantic no início do domingo sobre o que a ação militar dos EUA na Venezuela poderia significar para a Groenlândia, Trump respondeu: “Eles terão que ver por si mesmos. Eu realmente não sei”.
Trump, em sua Estratégia de Segurança Nacional publicada no mês passado, estabeleceu a restauração da “preeminência americana no Hemisfério Ocidental” como um princípio fundamental para seu segundo mandato na Casa Branca.
Trump também citou a Doutrina Monroe do século XIX , que rejeita o colonialismo europeu, bem como o Corolário Roosevelt — uma justificativa invocada pelos EUA para apoiar a secessão do Panamá da Colômbia, o que ajudou a garantir a Zona do Canal do Panamá para os EUA — ao defender uma abordagem assertiva em relação aos vizinhos americanos e além.
Trump chegou a brincar dizendo que alguns agora se referem ao documento fundamental do quinto presidente dos EUA como a “Doutrina Don-roe”.
Causando inquietação na Dinamarca
A operação realizada pelas forças americanas em Caracas na calada da noite de sábado e os comentários de Trump no domingo aumentaram as preocupações na Dinamarca, que tem jurisdição sobre a vasta ilha da Groenlândia, rica em minerais.

A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen. Foto: AP/Geert Vanden Wijngaert
A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, afirmou em comunicado que Trump “não tem o direito de anexar” o território. Ela também lembrou a Trump que a Dinamarca já concede aos Estados Unidos, membro da OTAN, amplo acesso à Groenlândia por meio de acordos de segurança existentes.
“Portanto, eu exorto veementemente os EUA a pararem de ameaçar um aliado histórico próximo, outro país e um povo que deixaram muito claro que não estão à venda”, disse Frederiksen.
No domingo, a Dinamarca também assinou uma declaração da União Europeia que ressalta que “o direito do povo venezuelano de determinar seu futuro deve ser respeitado”, visto que Trump prometeu “governar” a Venezuela e pressionou a presidente interina, Delcy Rodríguez, a se alinhar às suas exigências.
Postagens em redes sociais irritam dinamarqueses
No domingo, Trump zombou dos esforços da Dinamarca para reforçar a segurança nacional da Groenlândia, dizendo que os dinamarqueses adicionaram “mais um trenó puxado por cães” ao arsenal do território ártico.
Os habitantes da Groenlândia e da Dinamarca ficaram ainda mais irritados com uma publicação nas redes sociais feita por Katie Miller, ex-funcionária do governo Trump e agora podcaster, após a operação policial. A publicação mostra um mapa ilustrado da Groenlândia nas cores da bandeira americana, acompanhado da legenda: “EM BREVE”.
“E sim, esperamos total respeito pela integridade territorial do Reino da Dinamarca”, disse o embaixador Jesper Møller Sørensen, principal enviado da Dinamarca a Washington, em uma publicação respondendo a Miller, que é casada com Stephen Miller, influente vice-chefe de gabinete de Trump.
Durante o período de transição presidencial e nos primeiros meses de seu retorno à Casa Branca, Trump reiterou diversas vezes a jurisdição dos EUA sobre a Groenlândia e não descartou explicitamente o uso da força militar para assumir o controle da ilha ártica rica em minerais e estrategicamente localizada, que pertence a um aliado.
O assunto havia praticamente desaparecido das manchetes nos últimos meses. Então, há menos de duas semanas, Trump voltou a colocar a Groenlândia em evidência ao anunciar que nomearia o governador republicano Jeff Landry como seu enviado especial para a Groenlândia.
O governador da Louisiana disse que, em sua posição voluntária, ajudaria Trump a “tornar a Groenlândia parte dos EUA”.
Um aviso severo para Cuba
Enquanto isso, a preocupação aumenta em Cuba, um dos aliados e parceiros comerciais mais importantes da Venezuela, após Rubio emitir um novo e severo alerta ao governo cubano. As relações entre EUA e Cuba são hostis desde a Revolução Cubana de 1959.
Rubio, em uma aparição no programa “Meet the Press” da NBC, disse que autoridades cubanas estavam com Maduro na Venezuela antes de sua captura.
“Eram cubanos que protegiam Maduro”, disse Rubio. “Ele não era protegido por guarda-costas venezuelanos. Ele tinha guarda-costas cubanos.” O secretário de Estado acrescentou que os guarda-costas cubanos também eram responsáveis pela “inteligência interna” no governo Maduro, incluindo “quem espiona quem lá dentro, para garantir que não haja traidores”.
O governo cubano afirmou, em comunicado lido na televisão estatal na noite de domingo, que 32 oficiais foram mortos na operação militar dos EUA.
Trump afirmou que a economia cubana, já fragilizada por anos de embargo dos EUA, está em frangalhos e irá piorar ainda mais agora com a deposição de Maduro, que fornecia petróleo subsidiado à ilha caribenha.
“Vai cair”, disse Trump sobre Cuba. “Vai cair de vez”.
Aviso enviado à Colômbia
Trump, ao retornar a Washington no domingo à noite, também alertou a Colômbia, vizinha da Venezuela, e seu presidente de esquerda, Gustavo Petro.
Em uma troca de palavras com repórteres, Trump disse que a Colômbia é “governada por um homem doente que gosta de produzir cocaína e vendê-la para os Estados Unidos”.
Em outubro, o governo Trump impôs sanções a Petro , sua família e um membro de seu governo, sob acusações de envolvimento no tráfico internacional de drogas. A Colômbia é considerada o epicentro do comércio mundial de cocaína.
Trump iniciou sua campanha de pressão sobre Maduro, que durou meses, ordenando dezenas de ataques letais contra supostos barcos de narcotráfico que partiam da Venezuela para o Caribe. Posteriormente, ele expandiu as operações para também atingir embarcações suspeitas no Pacífico Oriental, vindas da Colômbia.
Em setembro, os EUA também incluíram a Colômbia, o principal beneficiário da assistência americana na região, em uma lista de nações que não cooperam na guerra contra as drogas, pela primeira vez em quase 30 anos. Essa inclusão levou a um corte drástico na ajuda americana ao país.
“Ele não vai continuar fazendo isso por muito tempo”, disse Trump sobre Petro no domingo. “Ele tem fábricas e instalações de produção de cocaína. Ele não vai continuar fazendo isso.”
Questionado se poderia ordenar que os EUA realizassem uma operação contra a Colômbia, Trump respondeu: “Para mim, parece uma boa ideia”.
Fonte: Associated Press (AP)/Aamer Madhani











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